quinta-feira, 29 de junho de 2017

Saudades de mim


Se alguém, 
em qualquer época da minha vida, 
desde quando a memória me permite relembrar, 
perguntasse o que mais me dava prazer ... a resposta seria LER.

Minha mãe não entendia por que perder o cinema com os colegas se, quando eu voltasse à casa, o livro estaria lá, prontinho para ser continuado. A única vez que cedi a esse argumento foi para comprovar sua invalidade, pois o tempo todo em que estive distante do livro "que estaria lá" não parei de pensar nele e não aproveitei em nada o que para os demais era diversão. Aprendi, bem cedo, que ser autêntica dispende menos energia do que fazer parte do que não tem a ver comigo.

No decorrer dos anos participei de diversos trabalhos voluntários, sendo alguns com deficientes físicos. Apesar de ouvir especialistas dizerem que a deficiência que mais deixa a pessoa desconectada do mundo é a surdez sempre pensava como seria terrível ser cega. Era coisa de adolescente, aquele medo infundado pelo qual todos devem passar em algum momento da vida: perder os pais, não passar no vestibular, não casar, eu temia deixar de ler.

As artes, de modo geral, me preenchem de experiências singulares que não posso cogitar vivenciar de outra forma. Ouvir música! Ouvi apresentações de duas grandes orquestras nacionais e uma internacional, amo tango, choro absurdamente com corais. Mas perdi parte da audição. Ainda ouço, mas sinto que escapa-me algo, há uma vaga sombra de nota entre uma frase musical e outra, canções mais delicadas pedem meus olhos cerrados para aumentar a atenção, o grunge do Nirvana por vezes começa como barulho até que o som surja em mim como talvez seja realmente. Tudo agora, em termos de música, é suspeição.

Enxergo. Tanto quanto no tempo do medo tolo. A leitura, no entanto, quase não existe mais. Talvez por conta dos remédios para controle da bipolaridade ou mesmo pela doença ... não consigo me deter em um parágrafo sem retomá-lo várias e várias vezes. Enfiar-me mar adentro, nadar como se fosse uma arraia prateada, entregar-me a uma história com a confiança de uma criança que gira e gira e gira em torno de si mesma com os braços abertos, isso agora é apenas descrição. O tanto que ganhei quando descobri a literatura perdi aos poucos e perder me parece - desde que me percebi mais pobre - muito pior do que já ter possuído fortuna imensa! Tenho agora o que chamam de membro-fantasma: perdi a literatura, mas continuo a senti-la. Esse sentimento, que poderia ser ao menos uma boa recordação, é mais que tudo dor e frustração. Causa tristeza, raiva, medo, saudade. 

Tenho em mim todos os livros que li, converso com todos os autores que conheci, mas é um mundo mofado e repetitivo, caduco e desbotado, infinito e castrado de novidade. Há nele uma janela sem imagens, por onde passo a cabeça a sentir a brisa e um cheiro bom que conheço desde sempre, dizem que é o cheiro que os livros têm, mas não! É o cheiro que a Vida tem! Essa mesma que já não enxergo, mesmo tendo visão. Essa que não mais pulsa, clama.

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