quinta-feira, 29 de junho de 2017

Saudades de mim


Se alguém, 
em qualquer época da minha vida, 
desde quando a memória me permite relembrar, 
perguntasse o que mais me dava prazer ... a resposta seria LER.

Minha mãe não entendia por que perder o cinema com os colegas se, quando eu voltasse à casa, o livro estaria lá, prontinho para ser continuado. A única vez que cedi a esse argumento foi para comprovar sua invalidade, pois o tempo todo em que estive distante do livro "que estaria lá" não parei de pensar nele e não aproveitei em nada o que para os demais era diversão. Aprendi, bem cedo, que ser autêntica dispende menos energia do que fazer parte do que não tem a ver comigo.

No decorrer dos anos participei de diversos trabalhos voluntários, sendo alguns com deficientes físicos. Apesar de ouvir especialistas dizerem que a deficiência que mais deixa a pessoa desconectada do mundo é a surdez sempre pensava como seria terrível ser cega. Era coisa de adolescente, aquele medo infundado pelo qual todos devem passar em algum momento da vida: perder os pais, não passar no vestibular, não casar, eu temia deixar de ler.

As artes, de modo geral, me preenchem de experiências singulares que não posso cogitar vivenciar de outra forma. Ouvir música! Ouvi apresentações de duas grandes orquestras nacionais e uma internacional, amo tango, choro absurdamente com corais. Mas perdi parte da audição. Ainda ouço, mas sinto que escapa-me algo, há uma vaga sombra de nota entre uma frase musical e outra, canções mais delicadas pedem meus olhos cerrados para aumentar a atenção, o grunge do Nirvana por vezes começa como barulho até que o som surja em mim como talvez seja realmente. Tudo agora, em termos de música, é suspeição.

Enxergo. Tanto quanto no tempo do medo tolo. A leitura, no entanto, quase não existe mais. Talvez por conta dos remédios para controle da bipolaridade ou mesmo pela doença ... não consigo me deter em um parágrafo sem retomá-lo várias e várias vezes. Enfiar-me mar adentro, nadar como se fosse uma arraia prateada, entregar-me a uma história com a confiança de uma criança que gira e gira e gira em torno de si mesma com os braços abertos, isso agora é apenas descrição. O tanto que ganhei quando descobri a literatura perdi aos poucos e perder me parece - desde que me percebi mais pobre - muito pior do que já ter possuído fortuna imensa! Tenho agora o que chamam de membro-fantasma: perdi a literatura, mas continuo a senti-la. Esse sentimento, que poderia ser ao menos uma boa recordação, é mais que tudo dor e frustração. Causa tristeza, raiva, medo, saudade. 

Tenho em mim todos os livros que li, converso com todos os autores que conheci, mas é um mundo mofado e repetitivo, caduco e desbotado, infinito e castrado de novidade. Há nele uma janela sem imagens, por onde passo a cabeça a sentir a brisa e um cheiro bom que conheço desde sempre, dizem que é o cheiro que os livros têm, mas não! É o cheiro que a Vida tem! Essa mesma que já não enxergo, mesmo tendo visão. Essa que não mais pulsa, clama.

terça-feira, 14 de março de 2017

Moana voltou!

Moana, o filme
Assistimos a esse filme num dia muito especial. Nele, fui dar uma aula a convite de um amigo e utilizei um desenho animado. Após essa aula Marina e eu fomos assistir ao Moana e algumas horas depois ao A Bailarina. Tínhamos assistido a três filmes em locais diferentes no mesmo dia e minha filhota estava extasiada com tamanha aventura!

Começamos a análise de qual era melhor em quê. No final das contas, três dias depois, Moana ganhou.

Moana é destemida
            começa com M
            adora o mar, 
            ouve o mar chamá-la
            é morena
            gosta de história antigas
            ama sua família
            é obediente (até onde consegue)
            é corajosa, sente medo, chora, desiste, resiste, existe!
 
Ela e a amiga dividem o "colar da amizade"
Marina chegou em casa com um adesivo de Moana, que ganhou de sua melhor amiga. 
- Mãe, ele tem que ficar perto da gente, à noite, igual ao Ginble (ursinha que dorme numa caminha ao lado da bicama.
Eu, cá em minhas orações _/\_ "Na parede, não! Na parede, não!". 

- Mãe! - os olhos brilhando de extrema felicidade! - Aqui! Posso colar na sua cama? Porque aí fica todo mundo junto, na sequência: você, Moana, eu e a Ginble!
- Pode, pode colocar.

E assim foi que começamos a dormir juntas, as quatro.

No último Carnaval cedi nosso apartamento para uma prima, seu marido e dois filhos (meninos) ficarem, já que estaríamos fora. Troquei todos os lençóis cor-de-rosa e até comentei com o pai dos meninos que fiz isso porque alguns coleguinhas da Marina chegam ao cúmulo de não lanchar quando o iogurte é de morango porque é cor-de-rosa! O pai, que já serviu ao exército, disse que lá não tem disso, não, que é besteira demais.

Passou o Carnaval e retornamos para casa.
- Mãe! Mããããe! Arrancaram a Moana!

Eu estava na sala, tentando arrumar nossas tralhas e lembro de ter pensado se eu teria arrancado ("Não, eu não faria isso") ou se teria descolado um pouco. Fui até o quarto e o adesivo estava totalmente retirado. Olhei todos os demais cômodos para ver se algo mais estava diferente. Nada. Nada além da tristeza e indignação da minha filha, nada além da palavra misoginia que não saía da minha cabeça.

- Mãe, fale com a mãe deles, ela é sua prima, isso não se faz, oxe! Ela não tava mexendo com ninguém! E a casa nem é deles!
- Eu sei, Marina, você está certa, vou falar depois.

Várias vezes no dia minha filha perguntou "Já falou? O que ela disse?" e no final do dia resolvi retomar o assunto, antes de dormir. Só Deus e meu estômago sabem a raiva que eu estava sentindo com o que eu considerava falta de respeito + vandalismo caseiro + misoginia pulsante.
- Olhe, quando uma coisa assim acontece com a gente...a gente precisa aprender alguma coisa com ela. Você não ficou triste e com raiva? Se a gente não aprender nada, só vai desperdiçar ainda mais os minutos de vida que a gente tem. Vamos pensar e cada uma diz uma coisa que aprendeu. Achei que ela realmente fosse pensar, mas mal fechei a boca e a resposta veio
- Aprendi a nunca mais emprestar minha casa - putz, que vontade de rir!
- Isso não vale. A responsabilidade pela casa é minha, tem que ser uma coisa tua, que mudou dentro de você, que você aprendeu, que vai usar de novo de um jeito bom. - Respirei fundo! - Vamo lá... eu, por exemplo...(pausa gigante)...aprendi que quando estiver com raiva não devo falar com a pessoa que me deixou assim, senão pode sair muita besteira, por isso não falei com a prima ainda.
- Mãe...
- Oi...
- Só consigo pensar que não quero eles aqui e não quero outra Moana porque nenhuma vai ser ela.
- Tem razão, meu amor, nenhuma vai ser ela.
 
Moana refeita
No dia seguinte encontramos os pedacinhos do adesivo pelo chão do quarto, debaixo dos móveis e Marina foi montando a boneca com uma paciência que eu nunca pensei que ela fosse capaz.

Cerca de 10 dias depois Marina me pergunta
- Mãe, ainda tá com raiva da tua prima?
-...não...
- Então pronto, manda a mensagem dizendo o que os filhos dela fizeram e diz que não venham mais aqui.
- Marina, eu vou mandar a mensagem porque acho que ela deve saber, mas quanto a não vir mais aqui é uma decisão minha.

Por mais que eu pense, não consigo entender. Um garoto de 9 anos e outro de doze! Numa casa que não é a deles, no quarto que lhes foi cedido pela menina com quem brincaram e riram até a hora da despedida, uma menina que não conheciam e por quem não nutriam qualquer sentimento. Acontece que aquele quarto daquela menina, a partir do momento que passou a ser deles, passou a ter lei: nenhuma menina entra. Principalmente uma Moana!

E justamente por seu quem é, ela foi refeita e continua conosco. Ainda não falei com a mãe dos meninos e meu intuito é o de deixá-la ciente do que houve, cabe a ela e o marido decidirem o que fazer. Estou calma para escrever, mas se for falar...afff...não tem peneira que segure!


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Como você engole a vida?

Balas Soft
Quando era criança morava num bairro onde tinha “mais criança do que gente”, como dizia minha avó.

Todos sabemos que a criatividade de uma criança sem muitos recursos externos é imensa quando outros fatores de sua vida são positivos. Pois lá entre nós as brincadeiras britavam feito capim.

Uma delas sempre me põe um sorriso no rosto. Era assim...

Juntávamos moedas e mais moedas. Marcávamos o dia e a hora. Chegávamos à venda da Dona Maria e todo mundo sacava as “pratas”, que explodiam no balcão ao mesmo tempo. O balcão de madeira fofa, já pintado tantas vezes e de tantas cores – eu mesma já o pintei de verde – nem permitia que as moedas saltassem, no máximo algumas caíam no chão ao se chocarem umas às outras. O barulho assustava o papagaio e aborrecia a velha, que falava uns cinco palavrões e perguntava o que a gente queria. Seu mau humor tinha a medida exata da sua ganância, então o tempo que levava para nos odiar era o mesmo que usava para se recompor e procurar simpatia, dentro sabe-se Deus de onde, para nos atender.

A empregada-filha-adotiva começava a contar, sorrindo, enquanto as 8 ou 9 crianças que conseguiram entrar no minúsculo espaço destinado aos clientes apontavam, aos gritos, para o pote de confeito (sim, hoje chama “bala”, mas dizíamos confeito mesmo) Soft e iam pedindo por cores. Sinceramente, era de enlouquecer qualquer um que, como Dona Maria, considerava crianças umas pestes!

Sempre-sempre-sempre havia um bêbado escorado no cantinho do balcão e esse era o principal motivo para irmos em grupo: medo deles. Lembro que minha primeira memória de um homem ali trazia a certeza de que era o mesmo e até cogitei que dormisse ali porque nunca entrei naquele lugar para não o encontrar. Só descobri a verdade quando comentei com minha mãe que Dona Maria morava com um homem e a filha adotiva. Isso aconteceu numa noite em que Dona Maria me pediu emprestada para dormir com ela porque Quitéria precisou viajar – e minha ME emprestou. Assim! Mas eu, finalmente, ia conhecer a venda por dentro, então tive dez minutos para correr para a rua e contar pra todo mundo que no dia seguinte todos saberiam o que havia depois da cortina do corredor.

O caso é que não tinha nada demais. Era uma casa comum, mas com quartos sem portas porque o medo dela era tanto que precisava ficar vendo que a outra pessoa estava na cama. A senhora era gigante de tão gorda e se não fosse isso, dizia, ela, dormiríamos na mesma cama – dei graças a Deus por ela ser obesa, pois só gostava de dormir com minha mãe. Havia, além de seu ronco altíssimo, um relógio antigo daqueles de filme de terror, que ficava batendo os segundos e à meia-noite tocava doze badaladas. Depois de acordar umas trinta vezes entre às 21h e meia-noite desisti de dormir e peguei um dos livros da Quitéria para ler. Sendo mais velha do que todos na rua, estava na “fase” de ler romances do tipo Sabrina, Júlia e Bianca. Odiei. Minha fase de lê-los nunca chegou porque naquele dia saltei direto para as biografias. Após a quarta página não me interessava por nada no livro, nada me causava curiosidade, fosse o enredo, as descrições minuciosas ou o final da história.

Do nada, pensei “Do que será que Dona Maria tem tanto medo?”. Já tinha perguntado à minha mãe, quando chorei, esperneei e gritei que não queria ir e ela, empunhando um chinelo, apelou para minha alma benévola e caridosa. Levantei e fui andar pela casa para encontrar alguma razão para medo além daquele maldito relógio, porque se o problema fosse esse era só se desfazer dele ou pará-lo. Não vi nenhuma baratinha sequer.

Dona Maria tinha medo de “alma”, contou-me pela manhã, quando me fez comer a ração de uma dia inteiro. Nunca vi aquela mulher tão alegre, talvez por eu ser boa múmia, “uma menina boazinha, calminha, ótima companhia”: foi assim que se referiu a mim quando me devolveu e eu entendi de cara que seria novamente recrutada e teria que inventar uma doença até lá.

- Dona Maria, e se aparecer uma “alma”, o que é que a senhora vai fazer?
- Ave Maria, menina, nem diga isso! – Então fazia o sinal da cruz e rezava alguma coisa
- Ô Dona Maria, e eu? O que é que eu vou fazer? Eu só tenho 10 anos.
- Ah, você corre, né, menina? Grita, pede ajuda...

Entendi, eu era a sirene. Eu, a Quitéria e todas as crianças e adultos que dormiram com ela até um dia desses, quando enfartou enquanto dormia, sozinha.
Fachada igual à da Venda da Dona Maria (arquivo pessoal)

Pois há 30 anos, quando estava vivinha, ela fazia questão de saber quantas crianças eram e nos entrega os montinhos de confeitos igualitariamente divididos. A gente sabia que às vezes ela roubava na conta e nos dava a menos, mas também descontávamos depois, de alguma forma, nem que fosse atirando pedras nas portas da venda à tarde quando o sol era muito forte e ela aproveitava para fechar tudo e cochilar.

Com nossos cristais coloridos em mãos começava a disputa. Abríamos a embalagem e o líder do dia gritava JÁ! e todos colocávamos a bala na boca ao mesmo tempo. Ganhava quem passasse mais tempo com ela inteira. Ia ficando fininha, fininha, cada vez mais transparente e era um tal de “mostra tua!” então começava a rodada de apresentar a língua e a situação da balinha.

- PERDEEEEU! KKKKKKKK – Gargalhada geral quando alguém não tinha nada para mostrar.

Sempre tinha o que blefava
                    O que dizia ter mastigado porque queria brincar de outra coisa
                    O que engoliu sem querer (quem nunca?)
                    O que dizia que o seu era menor e por isso derreteu logo
E os finalistas, dentre os quais eu geralmente estava. O medo que eu sentia de falar e quebrar a balinha, o suspense em saber como estava a do oponente, pois às vezes ela quebrava justamente quando íamos mostrar e os testes que eu fazia para saber em que situações ela derretia logo: se eu falasse? Se ficasse calada? Se respirasse pela boca? Se andasse? Nem era tanto uma questão de ser a ganhadora, mas de esticar a brincadeira ao máximo e poder rir mais do que todo mundo. Eu não me importava em perder, mas alguns vizinhos ficavam com tanta raiva que iam para casa!

Tenho um amigo que ama como se estivesse num Campeonato Eterno de Bala Soft. Daí ele ama um bocadinho, depois deixa na geladeira para regenerar ou não derreter. Ama mais um pouco, daí fica de boca aberta para secar a saliva. Não chega a sentir o sabor do amor por muito tempo e já reserva para mais tarde. Talvez tenha medo de sair do jogo, talvez seja medo de perder, talvez não queira ser engolido. Talvez nem seja bala Soft – e ele nem percebeu.



terça-feira, 29 de novembro de 2016

Andares



Passeava a Alma, límpida e leve, alegre e integrada a onde quer que fosse. Planava, vivia, sorria, penava um pouco de vez em quando. Num tropeço que deu ao diminuir a chama do candeeiro de um antigo albergue em Olinda deparou-se com um par de olhos muito atentos! Olhos fitos e brilhantes que pareciam atravessá-la e trazer ao presente todo o seu passado - o que tornou-a ainda mais luminosa.

Ele sorriu. E ela pensou nos tantos romances que sua imortalidade permitiu conhecer e lembrou que quase todos começam com um sorriso e alguma morte acontecia. Sorrisos sempre pedem resposta e quando sorriu de volta sentiu seu pescoço arder e o coração disparar como nunca havia sentido. O rapaz, entretanto, desceu imediatamente por uma ladeira estreita e escura. Ela espiou por alguns segundos e seguiu o próprio caminho, até que o olhar com sorriso entregou-lhe um coco gelado.

"Devo estar parecendo uma alma-penada-incendiando", pensou enquanto saboreava a água e ele confessava não se acostumar com as fitas presentes na arquitetura daquela cidade. Ela agradeceu e falou que precisava ir. Ele assentiu e disse que a esperaria todos os dias até ir embora. "Turista, o moço" pensou a Alma, que até ali vivia solenemente seu destino.

Com o nascer do sol a Alma, que não dorme, já havia provado diversas peles e formas e estaturas e cabelos e roupas e calçados. Pôs-se arrumada e foi fazer seu passeio. Procurava não pensar na promessa do rapaz, mas caso se vissem gostaria de estar mais próxima do mundo dele, já que era a única a poder transitar por ambas as esferas. 

A Alma encantou-se. As pessoas no pátio fotografavam, compravam, comiam, dançavam! Ele, ali por perto, sentado numa calçada com algo na mão, estava alheio a tudo, riscando o chão. Vestia a mesma roupa do dia anterior, por isso foi tão fácil encontrá-lo. Chegando perto, viu de relance o rabisco, mas considerou intimidade demais olhar sem permissão, então ficou apenas esperando. Passaram-se minutos para que terminasse o desenho e levantasse o rosto para olhar o movimento, e cruzou com os sorrisos dela: nos lábios e no olhar. Apontou para o desenho:

- Era o que eu tinha de você...
O desenho: seu sorriso, olhar e coração.

Encontravam-se com frequência e a cada dia a Alma estava diferente. Mudava por fora porque estava mudando por dentro e isso é bem claro e simples para as almas. As flores em seu caminho tinham mais cores e perfume, seu olhar trazia mais luz e o sorriso brando vez por outra tocava uma gargalhada.

Imagem daqui
Era desnecessário falar que ele partiria, pois é da vida que os turistas cheguem a esse momento. Até que durante um dia, um dia inteiro, a Alma luziu sozinha. Recolheu do chão algumas folhas e flores, fez uma mandala e ofertou-a a ele, para que fosse seu portão abençoado onde quer que ele estivesse.

Ainda por dois dias escolheu peles e formas e estaturas e cabelos e roupas e calçados e andava pela cidade atenta a movimentos bruscos e sutis, mas ainda mais àquele olhar que conheceu e já não via mais. Despediu-se da fantasia e retomou sua antiga rotina, certa de haver conhecido o Amor e por isso sentia-se imensamente abençoada. 

Imagem daqui
Até que num dia sem data encontrou um coco circundado por uma mandala de flores que brotavam ali perto. Era tarde da noite, mas como Almas enxergam bem em qualquer tempo, olhou ao redor detidamente, coração disparado, e foi ao agachar-se para tocar as flores que viu-lhe os pés. Olhou para cima e outra Alma sorria. O olhar de Amor brilhava ainda mais! Ele ajoelhou-se e novamente a serviu com o que beber. Colheu as flores e fez-lhe um buquê com um pedaço de fita perdida dentre outras. 

Levantaram-se dois sóis de felicidade e quando partiram ainda se pôde ouvir:
- Enfim, essas fitas têm serventia.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

O segredo do escorpião

Imagem daqui

Abri o chuveiro e passei algum tempo olhando a água cair. Enquanto via todas as cores acinzentarem pelo vapor que tomava o espaço e sentia a pele arrepiando, toquei o revestimento da parede. Nenhuma temperatura, mas de alguma forma reconheci que aquilo era de pedra.

O jato estava forte, mas eu não pensei em aproveitá-lo. Fui atraída para a pedra da parede, para o revestimento sem cor ou calor ou frio e pousei ali meu ouvido. Com os olhos fechados aguardei, durante algum tempo, que o segredo a mim resguardado por décadas fosse finalmente liberado. Os respingos chegavam frios à minha pele e ao invés de conforto aquela água quente já começava a incomodar. 

Nesse exato momento um escorpião esgueirou-se para meu pé subindo entre o dedo mindinho e seu vizinho, num caminhar leve, seguro e paciente. Escorpiões são comuns neste bairro porque foi construído onde antes havia Mata Atlântica - ou simplesmente engolimos essa explicação por preguiça de encontrar outra ou pela vaidade de estar morando com a Mata sob nossos pés. Bem morta sob nossos pés, sejamos francos, mas ainda assim é a rica Mata Atlântica! Seria algo como ter orgulho de ter sido "o pulmão do mundo" mesmo com todos os indicadores mostrando que o mundo está quase sem pulmão. Esse orgulho do TER SIDO impede o Voltar a Ser ou Ser Melhor. Mais alguém deve ter pensado nisso, é claro.

Antes de matá-los, fotografei todos os escorpiões que encontrei neste apartamento. São amarelos, não é possível uma convivência pacífica e eu aceito perfeitamente que eles não seriam capazes de construir um caixote que abrigasse 16 famílias de escorpiõezinhos, embora o peso na consciência fique realmente leve apenas quando penso que estou defendendo minha cria. Sempre achei aquelas fotos de pescadores orgulhosos com seus peixes fenomenais uma coisa bem estranha, mas é exatamente o que faço com os escorpiões. Talvez seja pior: não compartilho, só curto. Curto sozinha e deleto.

O bicho continuou a caminhada no mesmo ritmo, em momento nenhum fez alguma parada ou movimento diferente, apenas seguiu e então começou a descida, pelo dedão. E desapareceu.

Fechei o chuveiro sem ter ouvido o segredo, nem ter visto o escorpião. 

Enquanto tomava banho ia pensando que não ouvi o segredo exatamente porque não olhei para o escorpião.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Pensando de trás para a frente

Eu só estava sendo enfática. E ele é mesmo leonino

Outro dia me peguei explicando a um companheiro de projeto minha resistência em reutilizar objetos de plástico. Pensando na dificuldade em me fazer entender, resolvi escrever o que penso a esse respeito (vai que sou mais competente aqui...).

Como diria Renato Russo "Há muito tempo atrás (sic), numa galáxia muito, muito distante" entrei em contato com Educação Ambiental numa pós-graduação que cursava. Foi quando conheci o Instituto Akatu, melhor referência sobre meio ambiente à época e recentemente aprendi a calcular minha Pegada Ecológica. Nem de longe posso ser chamada de ambientalista, mas procuro conhecer as consequências das minhas atitudes e busco não piorar o que já está ruim no mundo.

Imagem daqui

Com relação ao consumo modifiquei alguns hábitos após ler em algum lugar que estamos habituados a pensar em nossa necessidade, depois no uso da coisa, em sequência no descarte do que foi adquirido. O pensamento ideal seria de trás para a frente, ou seja, a partir do descarte. Ao invés de pensar: "Eu preciso disso" devemos pensar "Como isso será descartado?". E ao invés de determinar que precisa de algo começar a refletir se precisa de tal coisa. Essa questão do consumo é bastante interessante sob vários aspectos e quando a mudei a forma de pensar encontrei várias des-necessidades em minha vida e em lugares que frequento. Quando comprei o apartamento onde moro os armários eram embutidos e o roupeiro do quarto de minha filha é imenso! Percebi que o meu ficava juntando tralha e então arranquei-o da parede. Quando meu então marido chegou e viu a bagunça perguntou logo onde iríamos guardar o que estava ali. As roupas já estavam no outro e desse, pasmamos, tudo foi descartado. Percebi, naquele momento, que quanto mais armários, prateleiras, mesinhas, racks, mais espaço tenho para encontrar alguma coisa que eu preciso colocar ali. O novo pensamento consumidor seria:
1. Como isso será descartado? Pode ser reciclado? Sei onde e como descartá-lo? É biodegradável? Tenho a opção de substituir por algo que não prejudique o meio ambiente, se for o caso?
2. Tenho onde usá-lo/guardá-lo ou precisarei comprar outro objeto para tal?
3. Preciso disso?
Garantia 1: muuuuuita economia, para começo de conversa.


É inegável que a invenção do plástico trouxe vários benefícios à sociedade. O exemplo mais próximo de seu uso para a maioria das pessoas tem a ver com os produtos de higiene, limpeza, depósitos para guardar alimentos - que mesmo sabendo fazerem mal à saúde ainda são utilizados. Também é de amplo conhecimento que esse material dura em torno de 500 anos para se decompor e tem trazido problema gigantescos à Natureza e ao meio ambiente Natureza e meio ambiente não são a mesma coisa. A questão é simples: as indústrias ou cientistas deveriam pesquisar outros materialis que tragam os benefícios do plástico e sejam biodegradáveis. Vou poupar vocês das razões $$$$ para que pesquisas nesse sentido não ocorram, ok?

Árvore garrafa PET e enfeites em PET e latas
Aproveitando a proximidade do Natal vou usar um exemplo de árvore que já decorou minha cidade. Meu coração chegava a doer quando via aquela belezura sendo fotografa e servindo de monumento. E foi neste ponto em que eu e o colega discordamos. Na concepção dele, se o produto já existe e vai passar 500 anos por aí, então que pelo menos sirva para algo. É o pensamento vigente, é claro, é a partir dele que se baseiam os 5 Ss: Repensar + Reduzir + Reutilizar + Reciclar + Recusar.


O que eu penso é que o plástico não deveria existir. Também penso que quando dou uma outra utilidade a um material que não deveria existir apresento a falsa conclusão de que ele “pode ser bom para”. Só que: qual será o destino da árvore de Natal após ser desmontada? Em quanto tempo a vida desse objeto no planeta diminuiu por eu ter feito sua reutilização? Quantas garrafas de refrigerante deixaram de ser produzidas, compradas e descartadas? Então, se não quero mais que esse material exista também não quero dar a falsa impressão de que pode vir algo bom dele, pois esse “algo bom” da reutilização não elimina a realidade de que o plástico está envenenando nossos alimentos, solo, águas e atmosfera. Da fabricação ao descarte ele é nocivo. Assim, assumo a postura de não participar nesse diminuto circo de horrores (se comparado a fatos maiores), não transformar garrafa PET em carrinho, tubo de sabão líquido em floreira, jogo-americano com tampa de garrafas plásticas. Evito comprar plástico e não estimulo reutilização.


Volto à pergunta do rapaz
- Qual o problema de usar se o material já existe?
- Existe, mas não sou eu quem vai fingir que ele pode ser bom. Porque o que deve acontecer é ser substituído por outras opções.


Ações de grupos e movimentos organizados têm feito pressão em relação ao uso indiscriminado dos vários tipos de plástico e vê-se o efeito nas prateleiras de supermercados, que apresentam cada vez mais sachês de produtos alimentícios e de limpeza/higiene - também são embalagens plásticas, mas dizem que se decompõe mais rápido...não sei se é verdade ou uma troca de seis por meia dúzia. Ações individuais, como preferir comprar produtos embalados em madeira ou papel, usar eco bag já no carrinho de supermercado e colocar hortifrúti ali e dispensar as sacolinhas, comprar sabão/sabonete em barra e evitar a embalagem plástica, escolher bolsas em tecido às de nylon, usar bucha vegetal ao invés de esponja, garrafas de vidro para suco e água, etc. São exemplos de ações que não requer a participação efetiva em algum movimento, mas ao mesmo tempo insere a pessoa num grupo imenso que precisa crescer urgentemente. Precisa crescer, muito mais do que precisa de inutilidades para o mundo.

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sábado, 12 de novembro de 2016

Bipolar, eu? Não, prazer em conhecer, Patrícia!

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Alguns médicos dizem que sofro de TAB.
Alguns médicos dizem que não sofro de TAB.
Algumas vezes acho que sofro, outras vezes acho que não.
Perdão, deixe-me apresentar a sigla: Transtorno Afetivo Bipolar - por enquanto, porque também já foi Psicose Maníaco Depressivo. Portanto, eu era psicótica e agora sou transtorna e, putz, como minha vida mudou com essa informação #sqn. A mudança ocorreu, basicamente, porque nem todos os pacientes que apresentavam "alteração de humor" (que é o olho do furacão) tinham características psicóticas.
O conhecido Dr. Drauzio Varela falou numa entrevista que o disgnóstico é determinado cerca de 10 anos após o paciente apresentar o primeiro episódio. Isso acontece por causa da instabilidade na qual o sujeito pode se encontrar, falta de preparo dos médicos e porque normalmente quando está na fase se "euforia" (na fase de outra palavra melhor, encontraram esta. Antes, era "mania") o doente acha que está bem e só vai ao médico quando está em depressão. Aqui você encontra um texto dele sobre o assunto.
Abaixo um trecho de outro site, que considero mais fácil (oi?) de entender parte da coisa:

"Transtorno bipolar, também conhecido como psicose maníaco depressiva, é uma desordem cerebral que causa alterações incomuns no humor, energia e capacidade de desempenhar funções. Diferente das variações normais de humor que todas as pessoas têm, os sintomas do transtorno bipolar são severos e podem resultar em danos aos relacionamentos, performance ruim no trabalho e estudo, e até suicídio."

Agora, Produção, vamos ver se você entendeu direito. O sujeito está sofrendo anos a fio, se enchendo de medicamentos errados que dão reações adversas super-punks, sendo tachado de doido ou preguiçoso ou impressionado porque todo mundo melhora menos ele até que um dia (ou não) batizam o que ele sofre pelo nome certo e o tratamento finalmente é mudado. Pronto. Tudo certo, né? Errado. Vai começar tudo de novo! Se tratar da depressão é complicado, imagine tratar dela e de seu oposto. Tipo sair para o barzinho com Super Man e o Super Man do Mundo Bizarro.

Meu primeiro episódio foi em 2001 e em janeiro de 2016 comecei o tratamento para TAB, o que realmente tem me dado algum conforto e espaçado as oscilações. Calculou? Quinze anos! E eu quem fez as milhares de pesquisas em sites científicos e levei para a médica. Quinze anos para receitarem anticonvulsivante (e eu me negar a tomar), quinze anos para saber que terapia da fala não é o mais indicado para o meu caso, quinze anos para eu saber que aquelas fases em que eu fazia meu TCC + trabalhava durante o dia + ensinava no interior + passei no concurso era "euforia". Peraê. Eu não existo mais?!

Há 17 dias não consegui permanecer no trabalho e saí voando para a primeira psiquiatra que encontrei. Foi indicada pela minha chefe e tinha vaga. A que me acompanha estava viajando. A mulher falava pelos cotovelos e, do nada, punha um sorriso no rosto com os olhos arregalados e perguntava "Você está me compreendendo (, ow fudida)? Grifo meu, é claro. Eu só balançava a cabeça porque não dava tempo de responder. Daí pediu que u acesse determinado site, imprimisse uma tabela e fosse anotando as alterações de humor a cada dia. Eu fique pensando: "Mas todo mundo não passa por isso? Qual é o ser vivente que não tem o humor oscilado, minimamente, mas tem?" Ela dobrou as dosagens dos remédios e quando saí de lá mandei uma mensagem para minha médica antes de tomar. Fiquei muito, muito assustada com a naturalidade com que a mulher mudou tudo sabendo que traria reações fortes e por isso me deu atestado médico.

O pior, para mim, é que foi o primeiro episódio desde o tratamento, e eu não vi os sinais, que começaram em setembro. Quando tenho uma ideia para um projeto penso "É minha ou oba-oba da minha cabeça?", se sinto vontade de fazer um curso lá vem a voz interna "Sou eu ou meus neurônios em clima de Carnaval?", quando estou cansada é "como foi meu dia hoje, para eu estar assim? Será que essa apatia é cansaço mesmo ou ela chegando?".

Conheci várias pessoas inteligentes, de boa índole e bom caráter, passando por situação parecida. Com algumas, nos comunicamos diariamente por WhatsApp, mas me incomoda o panorama geral que os doentes sofrem. O preconceito que sofremos, como se a própria dor não fosse suficiente. E esta sou eu falando. E esta eu vai fazer alguma coisa maior.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

E quem é você para amar?


Meus japamalas, com os quais "mantro"

Costumo entoar mantras todas as manhãs e normalmente vêm algumas reflexões interessantes - quando não a recordação de algo que necessito melhorar em meu comportamento ou atitude. 


A reflexão de hoje foi sobre “amar ao próximo como a ti mesmo”, como está no livro bíblico de Mateus (capítulo 22, versículo 39). 

Tenho lido e ouvido com certa frequência que devemos nos amar “primeiro” ou “mais” para cumprir esse mandamento. Tenho visto o auto-amor amplamente exercitado, mas talvez o amor ao próximo esteja sendo esquecido um pouco, mas isso é só divagação minha.

O fato é que essas explicações me incomodavam demais, não entendia ser possível mensurar o quantum de amor-próprio que devo ter para então amar ao próximo.

O que pensei hoje é que talvez estejam fazendo uma leitura distorcida dessa passagem e ela diga simplesmente o que Jesus falou o tempo todo: se é para fazer o bem, se joga!

Se você acorda todos os dias, come, se limpa, trabalha, estuda...

Se você acorda em dias alternados, sem vontade nenhuma de levantar da cama, toma banho quando está quente demais...

Se você cuida muito bem da tua saúde, cuida da família, pratica meditação, lê, brinca, pega trilha, tem negócio própria, dança...


AME AO PRÓXIMO.

Do jeito que você estiver.

Lembrando que amar requer ação, é tempo despendido, é pensar no que fazer e é fazer. Se não souber por onde começar e não conseguir ouvir seu próprio coração olhe para si mesmo. Observe o que te faz bem, observe o que faz bem aos outros, à Natureza, à tua comunidade, tua família. E ame!

Por estar vivo, ame ao próximo. Se você toma café da manhã, ofereça ao próximo um café da manhã. Se teu auto-amor te permite isso ou aquilo, ame com isso ou aquilo. Mas ame! E isso é urgente!

Desde muito tempo antes de Cristo! 

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Sobre viver o dia

Imagem daqui

Já havia morado aqui antes, mas quando a cidade era menor, ou mais tranquila, ou menos movimentada. Trabalhar e morar agora parece uma aventura devido às distâncias que preciso percorrer e as novidades que encontro quase diariamente.
À noite, retornando para casa desço do ônibus numa praça imensa, que as pessoas sempre atravessam como se monstros habitassem a sombra de alguma das raras árvores que resistiram ao tempo e descuido. Às vezes uso o celular (errado, concordo), mas geralmente caminho devagar, observando as pessoas, o local, o movimento e é assim que chego ao lado oposto tranquilamente e espero o sinal sonoro me fazer olhar os veículos pararem para atravessarmos. É uma coisa que dá poder isso de caminhar na faixa de pedestres sabendo que dezenas de pessoas estão nos olhando, aguardando, salivando com a demora extrema de alguns segundos imobilizadores. De tanto fazer o trajeto ganhei a noção exata do tempo necessário para atravessar minha passarela imaginário e colocar meu último salto na calçada, liberando a tráfego dos veículos.

Desperto então num corredor sempre lotado porque vários ônibus fazem parada ali, sendo impossível estar desatenta. Vendedores ambulantes e seus gritos, músicas e jingles, pessoas conversando e chegando e indo pelas trilhas esburacadas do espaço que não descansa, até que enfim avisto o carrinho de batata-frita. Fim da calçada. Esquina. Mais alguns passos e atravesso outra praça, bem menor do que a anterior, para finalmente pegar o ônibus para meu castelo: uma cama enorme só para mim, uma arara que serve de roupeiro, um aparador onde coloco umas coisas e o notebook, a estante com dezenas de livros, o tablet com centenas de livros, um e-reading com outro tanto deles, três pares de sapatos e minha linda luminária de cabeceira...a mochila chega comigo.

O inesperado pode causar surpresa ou susto. Em mim causou dormência.

Parei no meio-fio e esperei a passagem de mais carros do que o necessário. Não moveria um pé, mesmo que quisesse. Não quereria. Quem era aquele homem!? Um ruivo alto e musculoso movia-se vigorosamente montando seu local de trabalho. Acertou o local do carrinho, agachou-se para abri-lo e retirar banquetas, acendeu o fogo, rosqueou a lâmpada e uma luz amarela iluminou mais seu rosto. Vi sua pele branca dourar tremulante até que estivesse tudo firme. Respirei. Pisquei os olhos algumas vezes, como quando precisamos acostumar os olhos ao ambiente. E, sim, eu precisava acostumar meus olhos ao que estava diante de mim. Temendo ser notada, baixei a vista e segui para casa.

Há dois caminhos possíveis: pela calçada onde fica seu carrinho de acarajé ou pelo meio da pracinha. Sendo o mais discreta possível, sempre escolhia a calçada, assim podia vê-lo mais de perto, observar algo novo. Jamais cogitei maior aproximação, nem pensava nele até que atravessava a avenida e ia em sua direção. Numa noite nada especial, por estar faminta, resolvi desconsiderar a quantidade de vezes que aquele óleo foi reutilizado e parei para comprar. Os bolinhos tinham, milimetricamente, o mesmo tamanho e a mesma cor. Após a troca de quatro ou cinco frases, cada um seguiu suas horas.

Numa sexta-feira vi o moço conversando com alguns homens. Pela primeira vez vi seu sorriso. Que sorriso lindo! Como sorria lindo aquele rosto claro e avermelhado! Não tendo mais nada a fazer na calçada, comprei um saco de batatas-fritas e comi duas antes de entregá-lo ao filho de um vendedor de CDs falsificados. O vendedor de acarajés falava com os rapazes, olhava para todos enquanto falava, mas não perdia seu carrinho de vista. Parecia uma dança, quase um acontecimento que o tão educado cozinheiro também soubesse sorrir assim. Cogitei comprar...mas não quis perder o momento então atravessei a praça olhando-o vez por outra. Mais à frente olhei para trás e observei que ainda vinha luz daquele canto da praça.

Todas as (poucas) vezes que pedia o bolinho esperava que ele apenas confirmasse comigo “Camarão?”. Assim, eu saberia ser a Rosa dO Pequeno Príncipe e não apenas “mais uma entre milhares de outras rosas”.

Era sempre:
- Oi. Um acarajé.
- Prá viagem?
- Não.
- Camarão ou frango?
- Camarão.
- Quanto é?
- Três reais. Obrigada e volte sempre. (Falado rápido, como se estivesse atendendo a uma fila de clientes)
- Obrigada! Boa noite!

Dias depois, noites depois...dias e noites depois...
- Oi. Boa noite...
- Boa noite. Acarajé?
- Você gosta mais de qual: camarão ou frango?
- Como?! Ele parou com o bolinho inteiro numa mão e a faca erguida na outra
- Qual você prefere?
Pareceu perder o fôlego por instantes, olhou para o carrinho, depois para mim, já com ar descontraído, e respondeu:
- Frango. Mas camarão também é bom!
- Um de cada. Pra viagem. Separados.
Ao colocar nos sacos de papel teve o cuidado de sinalizar o que levava o de frango. Peguei-o e devolvi-lhe esse pacote. 

Sorri e falei:
- Pra você. Boa noite!

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Era das poucas mulheres que combinam mochila e salto alto. Usava vestido e mochila. Cabelos cacheados longos e depois curtos, mantendo os fios brancos. Sua voz curta e baixa seria tímida se seu rosto fino não trouxesse o olhar seguro de quem recebe a vida a plenos pulmões. Eu sempre tinha que me curvar um pouco para ouvi-la e numa dessas vezes senti seu cheiro. Não é de perfume que falo, é de cheiro. Sua pele tinha algo que me atraía, que despertava minha curiosidade.

A pontualidade com que chegava me fazia estar à sua espera desde que o sol se punha, enquanto eu arrumava o carrinho e distribuía as cadeiras em volta dele. Sentia como se estivesse aprontando a casa para recebê-la. E então, após milhares de minutos vigiando a calçada, quando aparecia um cliente e eu me voltava para lá, ela vinha. Tão leve, parecia distraída em um mundo particular, quase sorria para todos em volta, sempre olhava em várias direções e observava o céu com frequência.

Olhava um pouco o celular e guardava-o. Passava sem me olhar, enquanto eu me concentrava em mexer a massa.

Passei a olhar o céu quando estava sozinho.
Passei a procurar nele o que ela procurava.
Passei a procurá-la nele.

Acho que era casada, mas não olhei se tinha aliança. Tinha comportamento de mulher comprometida, embora fosse simpática e educada. Na segunda vez que comprou achou que seu ônibus estava vindo então teria que correr. Adorei essa noite. Era assim. Quando ia comprar ela vinha pela calçada e ia parando devagarzinho. Se eu estivesse ocupado e não pudesse atender logo, ela não chamava, esperava cordialmente até ser atendida. Dizia boa noite num sussurro, o olhar baixo e com um sorriso meio-preso fazia o pedido. Aconteceu nesse dia que ainda estava caminhando e acho que pensou em comprar um acarajé quando viu um ônibus parecido com o seu, tocou em minhas costas, pois eu estava de frente para o carrinho e disse “Eita, desculpa, é meu ônibus!” e saiu correndo. Fiquei olhando-a sorrindo por ter se preocupado em explicar quando eu nem a tinha visto. Ela voltou! Mais linda ainda, sorrindo muito, com o rosto brilhando, dando uns saltos infantis e disse:
- Não era ele, posso pedir meu acarajé. Boa noite!
- Então vou fazer logo pra não perder seu ônibus. Frango ou camarão?


Ela sempre pedia camarão. Se comprasse mais vezes eu até poderia preparar sem que pedisse, só com sua aproximação. Na última vez que a vi ela comprou um para ela e me deu o outro, no sabor que eu disse ser meu preferido. Passei o resto da noite pensando se havia entendido direito, se poderia falar melhor com ela da próxima vez, mas não houve outra. 

A moça foi embora, levando seu cheiro e seu sorriso e me deixando exatamente como era antes dela: sozinho com meus bolinhos.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

As mulheres de Almodóvar em Aquarius

Filme Tudo sobre minha mãe, de Pedro Almodóvar

As mulheres De/Para/Em Almodóvar choram, brigam, querem morrer, perdem a esperança, 
tentam suicídio, 
amam, 
caem. 
Ficam caídas, imóveis. 

Respiram, vão-se levantando com a força de lobos e andorinhas, como se o tempo da queda fosse apenas um descanso. 

E, erguem-se, essas mulheres de Almodóvar! Lesionadas, partidas, amputadas, diferentes de antes, transformadas pela experiência abrem-se para a vida novamente.

Parte do elenco feminino de Aquarius
Mais ou menos assim são as mulheres do filme brasileiro Aquarius. Não apenas Clara, a personagem principal interpretada por Sônia Braga, mas as que circundam sua vida.


Tela de Portinari
“O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. Euclides da Cunha era um “menino do Rio”, culto, jornalista, que pela primeira vez viu o sertão, viu a terra sem mar, viu gente sobrevivendo a despeito de falta d'água e comida. Estava em Canudos como jornalista dO Estado de São Paulo para cobrir a última fase da Guerra. De suas anotações veio o livro Os Sertões, onde está a frase tão conhecida, citada acima. 
Os soldados em Canudos, nas conversas insones das noites cansadas, contavam entre si sobre seus planos para quando voltassem ao Brasil. Euclides anotava. Os soldados que morreram e mataram não compreendiam estar lutando contra brasileiros.
Diante de um povo sem pátria, sem conforto, sem defesa e que ainda assim vivia e lutava, o que poderia pensar o jovem Euclides? Se, ao contrário de ter retornado ao Brasil ele tivesse continuado no sertão talvez entendesse que ali “se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia” como decantou João Cabral de Melo Neto no poema Morte e Vida Severina.


Clara (Sônia Braga) em frente ao prédio onde mora

A recifense Clara é crítica musical e escritora. Viajou, conheceu o mundo e escolheu viver em Recife até o fim de seus dias, em seu apartamento que-não-está-à-venda embora todos os demais do Edifício Aquarius já sejam da grande construtora que quer substitui-lo por uma moderna torre. Clara até poderia mudar de ideia com o tempo, mas essa seria uma decisão dela. Ela está em sua casa e mesmo ali, no espaço mais íntimo e privado que se pode ter, a ganância alheia lhe bate à porta.

Sobre a força da mulher fala-se quase como Euclides falou sobre o sertanejo. Tecem elogios à nossa força e resistência – mais em maio, para vender perfumes, e em outubro por causa do Outubro Rosa (não, nada a ver com as eleições que ocorrem nesse mês). Falam de nós, para nós, na terceira pessoa, como se não estivéssemos no recinto.

Clara está no recinto. É protagonista de sua vida, assim como Nise da Silveira, Zuzu Angel e outras mulheres retratadas no cinema brasileiro.

Filmes em que as mulheres são autoras da própria história sem usar de violência ou perder sua capacidade – humana, demasiado humana¹ – de superar-se e seguir de maneira íntegra e leal a si mesmas são cada vez mais bem-vindos!



Aquarius me inspira a buscar outra forma de militância, inclusive outro nome, pois desejo poder estar onde eu quiser, no espaço público ou privado, sem lutar, “sem perder a ternura²”. Em paz.


¹ Parafraseando o livro "Humano, demasiado humano", do filósofo Nietzsche;
² "Endurecer sem perder a ternura" é frase atribuída a Che Cuevara, porém acho tão a cara de Gandhi!